A Pandemia e o Definhamento: o vazio entre Depressão e Ansiedade

Máscaras faciais, utilizadas no combate ao Coronavirus.

No artigo de hoje, discutiremos alguns dos efeitos emocionais que a pandemia do coronavírus e as medidas de isolamento social têm gerado nas pessoas, além de entender o que significa o novo termo que psicólogos e psiquiatras têm usado para definir o que sentimos: o definhamento.

O que significa “definhar”?

Em resumo, definhamento diz respeito a um quadro agudo de angústia e desmotivação. Esse mal-estar gera falta de concentração nas atividades cotidianas e uma ausência de perspectivas e bastante insegurança em relação ao futuro.

O termo foi primeiramente concebido em inglês, como “languishing”, um vazio entre a depressão profunda e o bem-estar. Foi observado em pessoas que não estão acometidas por doenças e sintomas emocionais, porém tampouco apresentam saúde mental plena. Ou seja, não estão estáveis, não se sentem motivadas, alegres, e não sentem muita esperança quanto ao futuro, mas, apesar disso, ainda estão funcionais em suas atividades cotidianas.

No jornal americano “The New York Times”, o psicólogo e autor, Adam Grant, definiu este sentimento que foi estabelecido na pandemia como “definhamento”. Ele se refere a pessoas que não estão deprimidas, mas tampouco sentem-se felizes. O definhamento é o meio do caminho, um vazio onde muitos de nós se encontram atualmente.

Por que surgiu durante a pandemia?

Em meio ao caos gerado pela pandemia de Covid-19, às transformações na rotina e o agravamento da crise econômica, cada vez mais pessoas começaram a sentir e relatar sintomas de esgotamento físico e mental. Porém, em geral, esse mal-estar não tem nome. É difícil conseguir explicar o que sentimos, inclusive porque ninguém nunca imaginou viver o que vivemos hoje. Fomos surpreendidos por mudanças na rotina, retirados de nossos ambientes comuns e privados de contato social, e ainda estamos nos adaptando e aprendendo a lidar com essa realidade.

A pandemia trouxe muitas coisas novas, sentimos medo de um vírus desconhecido pela ciência, perdemos entes queridos e vivemos um cenário de muita incerteza em relação ao futuro. À medida em que o tempo passou e fomos encontrando novas formas de trabalhar, nos relacionar e ter algum tipo de lazer, o sentimento de medo diminuiu. Descobrimos que o trabalho remoto, o famoso “home office” é um modelo possível, usamos a tecnologia para fazer reuniões online, e as videoconferências se estenderam do trabalho para encontros virtuais entre familiares e amigos.

Porém a angústia permanece. Parece que fomos nos esvaziando de energia e ânimo, e o que vivemos hoje é uma sensação constante de esvaziamento. A vida ainda parece longe de voltar a um estado de normalidade e, aliás, ainda nem sabemos o que será considerado normal depois de tais eventos. Estudiosos especulam sobre o “novo normal”, mas a verdade é que ainda não temos como prever os efeitos que a pandemia provocará a longo prazo.

Apenas a título de diferenciação, é importante destacar que o Definhamento diz respeito a um estado emocional que abala a saúde mental, podendo se tornar um quadro de depressão, essa sim configura quadro patológico.

De qualquer forma, sabemos que os efeitos emocionais da pandemia, como a depressão, ansiedade e o definhamento tendem a persistir e são uma questão de saúde pública.

Como isso se reflete no cotidiano?

Por não estar funcionando em plena capacidade, física e mental, o sentimento de esgotamento surge, acompanhado de desmotivação, falta de vontade e energia para se relacionar ou desempenhar suas atividades.

A verdade é que esse sentimento nos entorpece, atrapalhando a capacidade de concentração e gerando um sentimento de frustração. Vivemos uma sensação de abatimento crônico gerado pela falta de perspectiva em relação ao futuro.

Com esse conflito interno, algumas pessoas podem ser culpar, por não reconhecerem o próprio sofrimento e acreditarem que deveriam estar bem, mas, apesar disso, não conseguem. Esse loop pode ser perigoso, pois a frustração pode deixar a pessoa cada vez mais para baixo em relação a si mesma.

Entre os sintomas mais relatados estão:

● Apatia;

● Dificuldade para se concentrar;

● Falta de prazer em realizar atividades que antes eram prazerosas;

● Insônia;

● Solidão e isolamento;

● Cansaço constante;

● Desmotivação generalizada.

Além disso, é importante ficar atento e perceber se esses sintomas começam a atrapalhar sua rotina diária, podendo comprometer seu rendimento, suas relações e seu bem-estar em geral.

É como um sentimento de depressão que não chega a ser uma depressão, combinado com o sentimento de ansiedade que não chega a ser uma ansiedade generalizada. Apesar de não receber um diagnóstico, é preciso ficar atento, pois o quadro pode evoluir e resultar sim em uma doença psicológica que requer acompanhamento médico e psicológico.

Um sinal de alerta para nos preocuparmos é quando as coisas que antes nos interessavam perdem a graça e nos sentimos constantemente desanimados. Esse desânimo pode invadir cada vez mais áreas da vida, até provocar um abatimento total.

Prestar atenção em sua saúde mental hoje e se cuidar é uma forma de evitar quadros mais graves no futuro, que podem evoluir para patologias mais severas e duradouras.

Na pandemia, o Definhamento comprometeu a saúde e a rotina de pessoas saudáveis. Como ainda não sabemos o que esperar de uma sociedade pós-pandemia, precisamos repensar nossa compreensão e a atenção dada à saúde mental e à preservação do bem-estar.

Se você se identificar com o que leu até aqui ou conhece alguém que já relatou estar se sentindo assim, não hesite em procurar ajuda profissional e apoio psicológico. A saúde mental precisa ser discutida e valorizada.

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Psicóloga, Redatora e Escritora 🖋 Uma leitora que não sai de casa sem ter pelo menos um livro como companhia 📚

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